COMPARTILHAR

Sou porque você foi antes de mim. Sou seu reflexo, seus domínios e defeitos. Se venço, você venceu comigo. Se perco, você já sabia e preparou seus braços para me acalentar. Minha história não se escreveria se não contássemos a sua, mãe.

Cresci ouvindo suas histórias debaixo do teto furado de um barraquinho na Brasilândia. O cheiro do seu cigarro fazia par as canções do Raul Seixas no radinho. Me lembro de quando você me contou das rodas de jogo na sala da casa do vô. Ali você foi abusada e negociada nas rodadas. Me lembro de quando me contou que fugiu aos 17. Estava cansada de tanto apanhar e sofrer nas mãos de um pai abusivo.

Contou que acabou na rua, depois de ter todos os bens saqueados nos cortiços. Dessa época de trevas em sua vida você me disse guardar a lembrança de um sonho na noite de uma oração desesperada onde pedia para morrer. Queria saber como era o “paraíso” e se as dores que sentia seriam findadas lá. No sonho, após percorrer um campo cheio de flores e ouvir uma voz que lhe indagava o que fazia alí e que ainda não era “sua hora”, acordou sentindo o mesmo cheiro das flores daquele campo em sua camisola. O cheiro permaneceu por uma semana.

Implorou para voltar para casa do pai carrasco quando descobriu que me carregava contigo. Construir seu espaço, nos fundos do terreno, eram uma das exigências. E sozinha ergueu nosso castelo de pau e todos os restos de construção encontrados na rua. Alí eu nasci e me você me criou como pode e com tudo o que pode revezando a catraca dos ônibus com as coxinhas na rua. Quando o Alê nasceu eu tive a primeira noção do seu trabalho como mãe: o de cuidar de uma vida, de uma casa e de lutar na rua pela sobrevivência.

Lembra dos 13 anos que vieram depois que você ficou de cama sem andar? Era minha adolescência e sua aposentadoria por invalidez. Foi difícil entender porque eu precisava trabalhar e entregar meu salário em casa. Eu fugi e te magoei tanto que nunca mais me perdoei pela dor que te causei. Foi preciso crescer e sofrer para entender que o “mundo” não nos quer tão bem quanto uma você. Cada porta na cara, enquadro na rua, amigo perdido para o crime e título de escória não me deixam esquecer das minhas origens. Do meu lugar no mundo. Da mãe que eu tenho.

Se sou um pouco do que sou, sou toda você. Sou realidade, sou fatos, coração de manteiga e lágrimas. Sou marginal e sou correta. Não tenho medo de trabalho e de morrer lutando pelo o que acredito. Se eu for apenas 10% do que você é, serei o melhor modelo de mim.

Para mulher mais incrível que conheço. Meu modelo de vitórias e derrotas. Para a mais devotada mãe do meu mundo.

Mamãe e eu em Americana

Eu te amo.