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Hoje eu ví o sol nascer. Me lembrei de 5:50 do Resgate e fui escutar: “Abro os olhos sob o mesmo teto todo dia, tudo outra vez…”.

Agradeci com uma lágrima a oportunidade de mais um dia, mesmo como o de hoje. Ontem, na saída do mercado, estava esquecida de que vestia uma camiseta vermelha, de fones no ouvido e alegre pelo raio de sol que trás a lembrança da vida leve que venho buscando. Esqueci que vivemos dias de confrontos vazios até ter a camiseta puxada por um indivíduo que aos berros me mandava para Cuba e para o inferno. Foi tão rápido, confuso e vergonhoso que eu estive longe por alguns segundos, inerte, sem respostas para aquela abordagem. Ele seguiu me empurrando e chamando a atenção dos pedestres que não esboçaram reação (a não ser a daquele cara, que rindo, filmou(?) e a das duas senhoras que endossaram o coro chamando-me de “petista vagabunda” algumas vezes). A afronta teve pausa pelo pedinte que, colocando-se a minha frente, esticava os braços na esperança de deter as palavras do agressor. Eu corri mas antes pude escutar.

“Tem que estuprar essa vaca!”

Não, não tem. Não tinha. Mas eu sei bem como é. Quando criança a culpa era do tamanho do meu short ou da ausência da mãe em casa. Mas e quando ela estava lá? E quando eu passei a viver coberta e reclusa?

Na adolescência a culpa era do meu apreço por sexo. Eu suportei calada não ter direito a negar. Acreditava que amor era isso: suportar tudo por migalhas.

Na idade adulta a justificativa é a cor da minha camiseta ou o simples fato de ser mulher. Ou de existir.

A manhã de hoje me relembrou o dia depois de cada estupro. Há um amargo na garganta, uma dor de cabeça depois de tanto chorar mas há também uma vontade de viver e voltar a sorrir que me resgata de cada período depressivo que vem a seguir. Deslizo para fora do casulo do medo e mesmo com muito pouca força sigo lutando para que eu, tampouco qualquer outra mulher, experimente um dia seguinte como esse.