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Ela havia chego eufórica outra vez. Tinha medo de perguntar o que ela fazia: hora me batia, hora ria loucamente de forma sinistra. Não sabia porque apanhava ou porque ela ria. Não sabia explicar o porquê mas não gostava da vida que levávamos. Era humilhada na escola, na rua e era surrada sem motivo em casa. Ouvia vozes vindas de sei lá de onde que diziam: “tome o veneno para o rato. Ninguém liga pra você”. Tinha dez anos.

Me estendeu um CD de capa preta onde li “Racionais Mc’s – Sobrevivendo no inferno” seguido de uma mensagem “Refrigere minha alma e guia-me pelo caminho da justiça. Salmo 23 cap 3”. Tomei coragem, ergui os olhos e perguntei:

– O que é isso, mãe?

– Isso aí, minha filha, é a realidade.

Cabia em um CD? Que realidade é essa?

Em “Capítulo 4 Versículo 3” chorei de dor. Nesse dia não apanhei mas entendi que realidade era essa que Brown cantava. A nossa. Do favelado fudido, do muleque lutando por amor e aceitação, da mãe que lutava…como a minha, para se livrar do álcool e da cocaína.

Não ouvi mais nada por semanas. Cheguei a arranha-lo de tanto que o ouvi e carreguei comigo pra escola. A capa de acrílico ficava com a minha mãe, em cima da caixa de descarga do banheiro, junto com os papelotes. Não emprestava esse CD por nada. Era o meu escudo. Agora as surras e provocações não eram mais contra mim mas contra todas as periferias e suas crianças. Contra cada presidiário, cada Jorge da Capadócia que sonha em viver em OZ…

Obrigada, Brown. Obrigada, Ice Blue, KL Jay e Edy Rock. Meu caderno não foi trocado por um fuzil por causa de vocês.